Quando rever é reviver.

Os vagões que outrora eram usados como playground permaneciam por ali. Das outras vezes que a estação fora visitada, os grafites passaram despercebidos. 

Com o olhar treinado de um Administrador, percebeu o parque industrial cortado pelos trilhos. 
Pensou: Uau! Isso aqui não existia há doze anos, ou existia?
Aliás, o caminho até o destino demorou mais do que ele imaginava. Nunca o tinha percorrido de carro. Quase sempre de bicicleta.

Dez passos o distanciam dos vagões, cujo os trilhos eram o divisor, que tornavam a distância maior. Como se mede dez passos em rodas? Ficou ali parado enquanto pensava nisso. 
 Sua memória refazia cada um dos movimentos ali vivenciados em uma infância de pé descalço e roupa molhada da chuva. Momento intenso! Deu até para sentir o gelado da terra nos pés quase como o da chuva sobre o corpo.

  A cadeira o limitava. Não faz mal. Ele gosta mais de viajar por palavras do que de trem.
Se lembrou também de todos os amigos que compartilharam aquela estação com ele. Um sorriso bobo e um olhar distante apareceram.

Ele não podia mais “brincar” saltando entre os vagões mas podia vê-los. Alguns dos seus amigos nem isso podiam mais fazer. A vida é mesmo feita de encontros e despedidas. “São só dois lados da mesma viagem. O trem que chega é o mesmo trem da partida.”
Nossa, que aperto no peito. Será a minha alma gritando? Pensou.

Deu alguns toques na cadeira, percebeu que um caminhão carregado se aproximava. Com base nas experiências anteriores, até imaginava qual era a carga. 
Esperou o caminhão passar, confirmou a suspeita, acenou para o motorista e foi embora. 



“Coisa que gosto é poder partir sem ter planos. Melhor ainda é poder voltar
Quando quero.”

Preciso reviver, mesmo que só na lembrança. Voltar à minha antiga casa, rever a minha infância. 
As recordações da infância são as que nos aprisionam no tempo, têm gosto gostoso e faz da saudade uma amiga.

Renata Fagundes tem uma percepção muito sensível sobre elas:
”Sou feito de gaveta. Lembranças amassadas, vestígios de infância, peças ousadas, dobradas, perfumadas, bagunçadas, profundas, escuras, trancadas.”


HIURI DE LA ROSA

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